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chegará brevemente

um tempo de silêncio indeterminado

as palavras não bastarão para

enamorarem todos os vazios intocáveis,

Num bolso de renda rasgada,

pende uma razão sóbria

e inocente – o vazio é inabitável –

e as ideias imprudentes,

mas que palavra, que palavra

é suficiente?

 

 

 

 

Antes era mais alta nas ideias imaginárias

E nos jogos de mesa e nas pessoas reais,

Hoje imagino amores

e invento calor

Nas tardes de inverno.

Antes dormia em camas maiores

E as janelas quase

nunca fechavam para mim,

Hoje não durmo

e as fechaduras são

Esconderijos rigorosos de cetim

Antes desenhava árvores e esperava

Com os olhos dentro do céu

Hoje escrevo em papeis sujos ou em lixo

E os olhares estão sempre perdidos no chão.

O amor já esteve para acabar

O amor já esteve para acabar,

ficou tudo num silêncio

germinal

e os andantes das ruas

não se viam mais.

É verdade,

que Bob Dylan também viveu

o dia

vivemos todos,

mesmo os que ainda não nasceram.

Era silêncio fúnebre,

os olhos das pessoas

eram olhos de mortos,

mas de mortos que andaram tristes em vida,

e as pessoas não reconheciam as outras.

Tudo se passou assim

(de que outra maneira poderia ser?)

é que também eu rasurei um papel

nesse tempo.

Escrevi: “o amor está para acabar hoje”

E quando agora leio,

é presente

e talvez esteja mesmo para acabar

tudo outra vez.

 

 

 

 

 

Tortura débil e dormente

Olha que a velocidade é forma e jeito

Mas é dor insuportável

Os dedos que te tocam são

Molhados encaixados nos teus nãos

Súbitos bafos decerto frescos

De noites trincadas à pressa

Vêm a ti só a ti só a nós

Os gestos congelam os próximos gestos

Estávamos para contar outros suspiros

Mas já não consegues mover

Mais versos mais distâncias entre nós

Que forces a palavra, meu amor

Que deites o teu sono no meu colo

Olha que é frágil o tempo

E os teus sinais receosos

São horas sem luzes

Em trânsitos deitados

Pela saliva

Que forces a palavra

E que te deites levado

Pelo rumor de toques suaves

Olha olha a tua voz é tão doce

E a janela é curvada não geométrica

E os teu olhos são

O café queimou a pele

Há que contar com a dor fugaz

Do café ou de teres saltado pela varanda

Há vinte juízes a olharem os nossos beijos mortos

Que fizemos

Com as palavras

Condenam-nos as velocidades

E os silêncios

Das varandas não salta mais nada

Nem pássaro nem nós

O nó de nós

Olha olha

queimou-se pele e papel e alguns gatos morreram

ao saltar

e o teu corpo ficou em saliva fundente

olha

vieram para julgar as palavras

e tiraram-nos os silêncios.

[é muito fácil

amar o que vimos até hoje

difícil,

dificil é

inventar palavras futuras:

se as há.]

o mundo moderno de Bauman é verdadeiro. as janelas são invenções humanas para fugirmos da morte (nem sempre resultam). as ruas do porto são apertadas demais para corações sensíveis. os poetas cabem todos na palma da mão de deus. o jazz é uma experiência revolucionária para vencer a guerra. a existência é uma faca afiada e guardada numa gaveta. o meu quarto tem uma parede rosa rosa rosa. há três mil pessoas a pensarem noutras três mil pessoas e talvez algumas pensem nas mesmas. só quando estamos velhinhos é que queremos saber das palavras. os atores são atores a vida inteira. os mistérios da casa do lado serão sempre súplicas violentas e chamadas em sangue. o zequinha toca-se numa viola amarantina. a televisão esmagou o crânio as tripas e as entranhas aos peixinhos. o café desce da máquina e vem ter ao senhor severino. os pássaros comem nuvens ao pequeno almoço e de nada lhes serve chiar. as relações entre os pássaros e as nuvens são mais humanas. o mundo é um saco de plástico. ninguém fala sobre a estrada e do homem que caminha sobre ela. as relações vivem dentro de um computador ligado a um cérebro universal. as doenças são mais do que as que têm um nome fixado. há um terço gigante em fátima a fazer sombra aos comerciantes. os erros são construções físicas e mentais e humanas.

Se eu pudesse, subitamente,

morar nos teus olhos

e mostrar-te o desejo

de trincar um beijo nos teus lábios

e na tua pele escrever versos mastigados.

Se eu morasse nas janelas mais altas dos grandes prédios

ou em barcos perigosos

ou em casas sem tetos com vistas melhores,

eu mostrava-te o que é morar em olhares.

Mas eu não posso respirar

e dizer-te que as nossas figuras

e os nossos ossos estão pegados.

E decerto queres saber se penso

na eternidade ou num qualquer deus ou no nosso governo

mas eu não moro nesses olhos, e, como poderia?

Diz-me, duvidando,

como se fosse possível duvidares de quem não conheces,

a possibilidade de habitarmos os dois

uns olhos de ferro

imersos em oceanos de liberdade.